A mulher dos tempos bíblicos

Posted: 30/08/2010 in Estudos

Não é fácil determinar a condição da mulher nos tempos bíblicos: é que muitas informações nos são transmitidas por textos rabínicos posteriores. As mulheres de Israel possuíam um status muito mais favorável do que o desfrutado pelas mulheres das culturas circunvizinhas. É, portanto perigoso – neste como em outros domínios – extrapolar as informações que temos.

Nos tempos antigos, as filhas não eram prezadas como os filhos varões. Alguns pais realmente as consideravam como um fardo. Por exemplo, um pai escreveu: “O pai vela pela filha, quando nenhum homem sabe; e o cuidado dela tira o sono: quando ela e jovem, para que não deixe passar a flor da idade [não deixe de casar-se]; e sendo casada, para que não seja odiada; em sua virgindade, para que não seja violada e se engravide na casa do pai; ou tendo marido, para que ela não se comporte mal; e quando casada, para que não seja estéril” (Eclesiastico 42:9-10). Contudo, os hebreus tratavam as filhas com mais humanidade do que algumas das culturas vizinhas.

Era permitido vender a filha, desde que não fosse a um estrangeiro, ou para prostituição (Êxodo 21:7; Levítico 19:29). A filha, entre 12 anos e 12 e meio, é uma adolescente que o pai tem o dever absoluto de entregar a um noivo, pois após essa data ela se torna plenamente maior e pode, portanto livremente aceitar ou não os projetos do pai. Durante esse período da adolescência, é o pai que decide e, pelo direito, pode fazê-lo contra o parecer da filha. Contudo, aconselha-se fortemente a ele que procure ouvir a opinião dela e não contrarie sua vontade expressa. Se o pai lhe deu um noivo ou um marido antes dos seus doze anos, ela pode dizer, no dia em que atinge essa idade: “Considero-me como vendida em escravidão e, portanto me liberto hoje”. E ela se torna efetivamente livre.

O tempo do noivado dura mais ou menos um ano e, segundo as discussões dos rabinos, ele se apresenta claramente como o tempo necessário para que a moça se torne fisiologicamente uma mulher e, portanto uma possível mãe: insistem para que se espere as primeiras ou até as quartas regras.

“Compra-se a mulher por dinheiro, contrato e relações sexuais, constata um rabino. Compra-se um escravo pagão por dinheiro, contrato e tomada de posse. Há então diferença entre a aquisição duma mulher e a dum escravo? – Não!” Essa definição apresenta bem a condição feminina: como o escravo, a mulher depende de seu senhor-marido e tem que assumir todas as tarefas; não pode aproveitar-se nem dos rendimentos do seu trabalho nem do que ela achar; só está sujeita aos mandamentos negativos ou gerais da Lei e não aos que estão ligadas a um tempo preciso: senão, como haveria de ocupar-se das crianças ou das tarefas do lar? Se não lhe é proibido interessar-se pela Lei e pelas tradições, é muito desaconselhado, no entanto, ensinar-lhe demais a respeito disso, pois “aquele que ensina a Torá à sua filha ensina-lhe a prostituição”!

A época do Novo Testamento, as mulheres judias já não participavam ativamente no culto do templo ou da sinagoga. Embora houvesse uma área especial no templo conhecida como “Pátio das mulheres”, não lhes era permitido entrar no pátio interior. Fontes extrabíblicas dizem-nos que

Não se permitia as mulheres ler ou falar na sinagoga; mas podiam sentar-se e ouvir na seção especial a elas destinada. Uma mulher ou um incircunciso podem mandar oferecer sacrifício, mas é-lhes proibido entrar no coração do Templo: não podem acompanhar nem ajudar o sacerdote.

O lugar da mulher é em casa, ocupando-se dos filhos e da casa e fiando a lã, na Judéia, ou o linho, na Galiléia: os textos prevêem a quantidade mínima que ela deve fiar ou tecer por semana, quantidade esta que é reduzida se ela amamenta um filho de menos de dois anos. Ela nada tem a fazer fora de casa e se for obrigada a sair, deve guardar o anonimato mais completo, por isso se usa o véu. Se ela conversa com alguém, por exemplo, para pedir uma informação, deve-se responder-lhe o mais brevemente possível; fora disso, não se lhe deve dirigir a palavra, nem sequer para cumprimentá-la.

Diante dum tribunal, ela jamais é admitida como testemunha e menos ainda como juíza. Na sinagoga ela tem seu lugar; no entanto, pode haver lá uma infinidade de mulheres, se não houver dez homens adultos, é impossível celebrar o ofício.

Ela deve ainda aceitar que seu marido divida sua afeição entre ela e outras mulheres, quer sejam esposas como ela, quer sejam concubinas, ou até mesmo escravas. Notemos, no entanto que a poligamia é muito rara e isso em primeiro lugar por razões econômicas.

Era contrario a Lei que uma mulher não casada tivesse relações sexuais (Deuteronômio 22:20-21). O sexo, porém, era parte muito importante da vida matrimonial. Os judeus levavam isto tão a serio que o homem recém-casado estava livre de seus deveres militares ou de negócios durante um ano inteiro, de sorte que ele promovesse “felicidade a mulher que tomou” (Deuteronômio 24:5). O alvo primário da esposa era dar filhos ao marido. A família judia esperava que a esposa se tornasse como uma videira frutífera, enchendo a casa de filhos (Salmo 128:3). Assim, a mãe saudava o primeiro filho com muita felicidade e alivio. O filho é absolutamente essencial para o judeu: é ele a garantia de que o povo eleito continuará a existir, o sinal da perenidade da Aliança e, portanto a prova da bênção divina: não ter filho é uma verdadeira maldição (pela qual unicamente a mulher é responsável!).

Mas a mulher é também filha de Israel, o que lhe confere direitos. Tem direito a um mínimo vital: seu marido é obrigado a lhe dar o necessário em alimento, vestes e dinheiro para uso próprio, sem o que ela pode se queixar perante um tribunal que, após inquérito, obrigará eventualmente o marido a se divorciar: Ela também tem direito à dignidade: se ela cai na escravidão, o marido deve fazer tudo para resgatá-la; se ela está doente, ele deve conseguir-lhe os medicamentos necessários; enfim, ele não pode lhe impor votos contrários à sua dignidade nem obrigá-la à prostituição. Finalmente, ela não pode ser repudiada de qualquer maneira: o contrato de matrimônio é ao mesmo tempo um freio para os desatinos do marido e uma garantia para a mulher.

É necessária a viuvez ou o divórcio para que a mulher encontre enfim sua autonomia e goze da liberdade e da possibilidade de administrar seus negócios. Mas ainda é preciso que suas rendas lhe permitam viver! Se não, ela pode escolher entre o segundo casamento e a miséria… A não ser que, abandonando o véu, ela se entregue á prostituição.

Esta situação global explica bem a pequena importância das mulheres e ao mesmo tempo a insistência sobre as viúvas que se pode encontrar no Novo Testamento.

Outras leis hebraicas ofereciam proteção às mulheres. Se o homem tomasse uma segunda esposa, ele ainda era obrigado, pela lei, a alimentar e vestir a primeira esposa, e continuar a ter relações sexuais com ela (Êxodo 21:10). Mesmo a mulher estrangeira, tomada como noiva, na guerra, tinha alguns direitos; se o marido se cansasse dela, devia dar-lhe liberdade (Deuteronômio 21:14).

O marido pode repudiar a mulher. Discutia-se muito, na época rabínica, sobre o motivo alegado em Dt 24,1: “se ele encontrou nela algo de inconveniente”. A escola de Shamai não admitia como motivo senão a má conduta ou o adultério da mulher, mas a de Hilel admitia razões mais fúteis: bastava que a mulher tivesse preparado mal uma refeição ou mesmo que ela tivesse cessado de agradar ao marido. As mulheres, ao contrário, não podem pedir o divórcio: a hipótese de Mc 10,12 (que não consta em Mt-Lc) é sem dúvida influenciada pelos costumes pagãos.

Pesquisa:

Vida Cotidiana nos Tempos Bíblicos – Merril C. Tenney, J. I. Packer, Willian Wite Junior

A Palestina nos Tempos de Jesus – Christiane Saulnier  e Bernard Rolland

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